30 de Julho de 2007

O Direito de Escolha

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Foto de Daniel Lima Ribeiro

Música da Semana: Estranha Forma de Vida
(Amália Rodrigues & Alfredo Marceneiro) -
no MP3 por Caetano Veloso, no vídeo um misto fado/jazz/blues

clique para ouvir
letra da música de semana


Quando começa a vida? Não existe uma resposta simples. Esta resposta é muito mais cinza do que preto-no-branco.

Não acho que comece na fecundação do óvulo pelo espermatozóide. Por que? Porque para a vida ser gerada, isso não basta. É necessário que o útero da mãe esteja no ponto certo para abrigar o ovo fecundado ou gravidez não segue.

E uma vez que o ovo esteja bem aderido ao útero já existe vida? Isso depende.

Para muitos bebês sortudos, a vida começa muito antes da concepção. Começa no momento em que mamãe e papai planejam a sua vinda. Para muitos outros bebês, a vida nunca começa.

O que é viver? Será que basta um cérebro e um coração batendo? Pode-se chamar de vida o que as crianças miseráveis levam? Sem comida, sem saúde, sem carinho. Isso é vida?

É claro que você já está se perguntando se eu sou a favor do aborto. Eu, Deborah, não faria um aborto exceto em uma condição. A condição de saber que meu bebê não vai sobreviver por causa de uma doença grave.

“Mas, você ainda não se posicionou, né, Deb?” Não. Vamos por partes. “Você é a favor da legalização do aborto?” Por incrível que pareça, nos casos em que eu aceito aborto, o aborto já é quase legalizado no Brasil. O Artigo 128 do Código Penal, de 1940, permite a interrupção da gravidez quando houver risco de vida para a mãe ou se a gravidez resultar de estupro. Falta ainda legalizar os casos que implicam em não-sobrevida para o bebê.

Ainda não me posicionei o suficiente? Bom, sou absolutamente contra o aborto em casos de gravidez indesejada. Não me interessa se a mãe é rica, pobre ou médio. E não vou me estender mais que isso, falando de planejamento familiar e uso de contraceptivos. Já falei sobre isso no artigo “A gente se cuida?”.

Também sou contra o aborto de mulheres que já são mães de mais de 4 filhos. E não me importa a mínima se elas estão dentro ou fora dos 10% mais ricos do Brasil. Se estiver nesta faixa, deveria ter o bom senso de se precaver.

E se não estiver nesta faixa? Bom, se não estiver, o buraco é um mais embaixo. E mesmo assim sou contra o aborto. Sou contra o aborto porque não acho que seja solução. Vocês que me lêem sabem que sou muito mais a favor de prevenir do que remediar. Neste caso, também.

Pense comigo (deixe de lado o seu “espírito cristão” só um pouco). Você não acha que o bolsa-família, o bolsa-escola, o fome zero e etc., que dão mais para famílias maiores, estimulam a procriação indiscriminada? É digno viver de esmola? É justo que toda uma população de trabalhadores se veja privada de bons hospitais ou que os professores ganhem tão pouco ou ainda que você não receba o que pagou quando se aposentar porque o governo precisa ajudar os miseráveis? Isto é vida?

“Ah, Deb, falar é tão fácil! E qual seria a solução?” Solução a longo prazo existe sim. Podemos começar por não estimular este tipo de atitude, este modo de vida. A tentativa de ensinar a D. Maria lá do sertão ou a D. Josefa do interior que ter uma penca de filhos só leva à miséria não deu certo? Então, vamos tirar-lhes o poder de decisão. D. Maria e D. Josefa têm mais de 4 filhos e outro na barriga? Ora, doutor obstetra, ligue-lhes as trompas e ainda convidem seus maridos a fazer uma vasectomia! A conta da saúde será muito menor em pouco tempo. A filha mais velha já engravidou aos 14 anos? E agora aos 16 está grávida do segundo filho? Vamos evitar que ela seja uma futura D. Maria! Ligadura de trompas já. É arbitrário? É. Mas, todos precisam comer e precisam de roupa e precisam de educação e precisam de tantas coisas. E se D. Maria não é capaz de dar, apesar de trabalhar de sol a sol na roça e mesmo assim continua engravidando, bom, alguém tem que ser capaz de pensar por ela no melhor para ela e para a sua família. Ou você será capaz de me dizer que o que eles levam pode se chamar de vida? E duvido muito que alguém me apresente um argumento racional melhor do que este para me fazer mudar de idéia.

Quanto aos defensores da legalização total do aborto, bom, respondam-me: D. Maria e D. Josefa ou mesmo suas filhas fariam um aborto por livre e espontânea vontade? Não acredito não. Principalmente porque D. Maria, D. Josefa e suas filhas são tementes à Deus e ouvem os padres de suas paróquias. E não querem arder no fogo do inferno. Será que já não é o suficiente o inferno que “vivem” aqui?

E para quem ainda tem alguma dúvida, eu tenho mais uma pergunta: basta um hospital decente e um profissional competente para não haver complicações em abortos provocados? E é essa a nossa realidade? Os hospitais públicos estarão realmente capacitados para que não ocorram muitas mortes decorrentes de abortos? Mais do que discutir onde começa a vida, vamos pensar onde começa a defesa da vida?


14 comentários:

Olá Debby,
Já que sou a primeira a comentar, devo dar margem à um sem número de prós e contras. Vou deixar de lado meu lado cristão, como você mencionou, e veja: se houvesse incentivos à EDUCAÇÃO, seria quase que o suficiente para resolver este problema, mas a verdade é que não há . Não há porque interessa aos políticos e às Igrejas, que exista as Marias e Josefas, como vítimas, para que eles apareçam como salvadores.
Sou totalmente contra o aborto e a procriação indiscriminada, aumentando o nº de famintos. Mas quero dizer que sou contra o aborto, não interessa em que fase ele esteja, porque ao feto não é dado sequer UMA chance de defesa.
Minha faxineira engravidou, já tendo dois filhos e não podendo mantê-los e me pediu uma receita de um abortivo. Disse a ela que jamais daria. Se ela não se preveniu, o que eu poderia fazer seria dar uma arma para quando o filho nascesse, ela o matasse. Assim, quem sabe, daria tempo de alguem adotar, ou ela se como ver, enfim viva, a criança tem chance de viver, mas de forma brutal e covarde não se mata absolutamente nada, quanto mais uma vida. Já entrei em muitas discussões por causa disso, mas essa é a minha opinião. Investimento na EDUCAÇÃO, e não dar esmolas ou ajudar com bolsa isso e aquilo, discriminando e dividindo a população e o pior, pondo uns contra os outros.
Você é corajosa, e lhe admiro muito. Já imaginou se sua mãe fosse orientada a lhe abortar, ou incentivada a lhe ter em troca de bolsa. E eu não teria tido a oportunidade de conhecer a mente de uma mulher maravilhosa como você?
Beijos Debby,
Parabéns pela forma como conduziu o texto e pelo leque que abriu para discussões.
Mirse

Eu não sou a favor do aborto, EU NUNCA o faria. Mas sou a favor do poder da opção, isso vivendo numa democracia.
Concordo, que o caminho não está em dar "esmolas", sejam elas individuais ou governamentais, e também concordo que a maioria das "Marias" e "Josefas" não fariam o aborto mesmo que legalizada a escolha.
Porém continuo a achar que o caminho está na educação e na saúde, é um caminho a longo prazo sim, mas cada vez mais acredito nisso.
Neste momento moro no norte de Inglaterra, numa cidade pequena, onde o que mais se vê são crianças. Quase todos os casais têm mais de 2 filhos, 3 é o número médio, e já vi muitos casais com 4 e 5 filhos. O governo apoia? Sim, apoia dá subsídios conforme o nº de filhos, conforme o cálculo que eles fazem entre receita e despesa que aquela família necessita. Mas também dá uma educação excelente e um ótimo sistema de saúde, e qualquer um dos dois completamente gratuito até aos 16 anos. Sei que nas cidades grandes, aqui, a conversa é outra, porque as mães não pretendem deixar a carreira para estar em casa com os filhos e claro isso faz com que as famílias sejam menos numerosas.
Bem, mas o assunto não é onde eu moro, apenas relatei os factos porque para mim este país é um grande exemplo de que quando há educação e saúde com dignidade as pessoas sabem fazer as próprias escolhas.

Bem, Debora, em primeiro lugar eu vou tomar a liberdade de deixar aqui o link de um texto sobre esse assunto que pus no meu blog:
http://oelementofogo.blogspot.com/2007/05/descriminalizao-do-aborto.html
Na verdade o texto não entra em moral e ética, fala apenas do porquê eu acredito que o aborto deve ser legalizado já!
Agora quato ao que eu penso, pessoalmente, acho a ligadura de trompas uma excelente idéia! Mas sou mais radical: Pra mim qqer criança que vivesse em uma família com renda abaixo de X reais, ao entrar na puberdade, corta! A questão é que um governo que não fornece anticoncepcionais para o seu povo jamais faria isso. O que as pessoas não entendem, é que não adianta nada ter informação. Um casal que mal come por falta de recursos financeiros jamais irá gastar seus míseros reais em pílula ou camisinha!
Sou a favor da legalização do aborto por um motivo: eles vão continuar acontecendo, tendo lei contra ou não. A única coisa que vai mudar é a maneira como isso acontecerá!
Sou 100% a favor do direito de cada mulher em fazer o que quiser com o seu corpo.
Eu não sei se hj, neste momento eu faria um aborto. Mas me reservo esse direito se um dia considerar necessário!
Bjs!

Eu sou contra o aborto, mas sou a favor de sua legalizaçao.. Como assim??? Sério... Penso que com a legalizaçao, as mulheres que optam por abortar, com todo direito de escolha, nao ficariam nas maos de clinicas clandestinas, remédios abordotivos, profissionais descapacitados, correndo riscos de vida. A legalizaçao acompanhada de um bom tratamento pós aborto seria próximo ao perfeito sendo que uma minoria pode recorrer a um terapeuta. UM outro benefício com a legalizaçao ??? A partir do momento que a mulher pode conversar mais abertamente sobre o assunto, escutar opinioes de vários profissionais, sem que se sinta culpada pela lei por isso, pode-se até reduzir o indice de abortos, quando o caso nao justifique tal ato..

Quero dizer remédios abortivos..

Adorei o texto. Acho que ele vai além de várias leituras superficiais e "metidas a politicamente corretas" que vemos tantas vezes sobre o assunto.

Concordo que várias iniciativas premiam a falta de planejamento familiar. Planejamento esse que é sim uma questão de saúde pública! Afeta investimentos em educação, saúde, e por aí vai...

Gabriel o Pensador tem uma música chamada "Pátria que me pariu" onde ele narra a vida de uma criança pobre que nasce depois de uma tentativa de aborto e leva a vida sempre em sub-condições. Ele termina a música com o personagem morto depois de ter se tornado um criminoso. E fala justamente que nessa hora o aborto foi concluído.

Pobreza não é um caminho certo pra o fracasso. Não faltam exemplos que mostram o contrário.

Mas não oferecer condições pra que um "bolinho de carne" se transforme em um ser humano - saúde, carinho, educação básica,... - é um convite para a infelicidade. Uma tremenda injustiça também...

Maria Helena disse...
31 Julho, 2007 18:02
 

Olá Deborah,

Ter o direito de opinar todos tem esse direito. Quanto ao assunto de hoje é polêmico e as opiniões são diversas, não chegando a conclusão nenhuma.
Eu não sou a favor, mas também não posso tirar o direito da escolha da pessoa que optou pelo aborto. Com certeza, eu faria inúmeros comentários contra. A favor, somente os casos especificos como: riscos de vida, feto mal formado etc.... Escolher: eis a questão.
Um abraço, Deborah.
maria helena.

Michel Leandro disse...
31 Julho, 2007 22:38
 

Olá Deborah,

Não sou a favor do aborto.

Confesso que fico indignado com a Igreja Católica em ser contra o preservativo - cada bobera - e as pessoas caem nessas ciladas "leis" humanas. As ajudas do governo - esmolas - são rídulas, pior é quando o povo ainda as agradece.
Essas exceções citadas no texto para a prática do aborto são inteligentes e até corretas em minha visão - tirando o meu teor de "cristão/espítita", como você indicou.

Sou a favor da mulher ser operada quando ela não pode dar uma vida digna ao seu futuro filho. Dois filhos no máximo - isso deveria ser uma lei, para quem é de renda muito pobre. Confesso que isso deveria vir da conscientização do povo, mas o nosso país ainda é BURRO, carnavalesco e só.
Depender da Educação? Não acho que devemos.
Sempre quis ser professor e ainda quero, o ano passado quando terminei meu segundo grau tive uma aula com um professor novato de Literatura, e acredite se quiser eu sabia muito, mas muito mais que ele. Que vergonha. Estudar Direito e Letras no país deveria ser obrigação. Penso que o país que não conhece suas leis e língua não vai para frente. Como diz a letra: "O Brasil não conhece o Brasil". Desculpe ocupar tempo falando de Educação, mas é que me dói.

Li uma reportagem uma vez de um cientista dizendo que, o mundo está hoje preocupado, ou pelo menos sendo muito comentado, sobre o tal aquecimento global, mas não devemos esquecer que existem pesquisas que dizem que se um valor (alto) número de pessoas
estiver vivendo no planeta poderá não haver muito oxigênio. E a água? E a comida?

Remediar, nosso país vive remediando. Por falta de informação? Não. Por falta de "vergonha". Voltamos na "Educação".

As pequenas exceção para o aborto devem ser vista como RARAS.
Muitos que já comentarão disserão que não podemos tirar o direito de quem queira fazer o aborto, já que estamos numa democracia. Que democracia?
Para mim não existe DIREITO e nem DEMOCRACIA quando se trata de uma vida. Na hora do sexo não houve DIREITO e nem DEMOCRACIA não é mesmo? (estou falando quando a pessoa tem condições, tem informação e está fora da lista de exceção - que já é muito - para se ter esse filho).

abraços.

veteranix disse...
02 Agosto, 2007 15:46
 

Ao ler muitas das manifestações sobre o assunto “ABORTO”, sempre me vem à mente este velho jargão “PIMENTA NOS OLHOS DOS OUTROS É REFRESCO”.
Vejo centenas de “entendidos”, falando com extrema convicção e até prepotência contra o aborto e ditando normas de conduta para as “outras pessoas”. Mas e se ocorresse com elas, ou com uma filha adolescente ou com alguma pessoa de seu afeto, encarariam o problema da mesma forma ????
É uma questão que nunca fica respondida satisfatoriamente !!!

Tenho acompanhado alguns debates sobre o assunto e na maioria deles vejo, de um lado, alguém que é contra o aborto, vociferar Leis Divinas e Religiosas, impedimentos éticos e a “defesa da vida”, tentando impingir o “Fogo do Inferno” a quem se utiliza deste método. Do outro lado, geralmente, são médicos ou pessoas das áreas técnicas da medicina, apesar de não haver unanimidade entre eles, que tentam explicar sua posição à favor do aborto, utilizando argumentos técnicos e científicos e também éticos.
Sem entrar no mérito de cada posição, tenho certeza de que o problema não pode mais ser “EMPURRADO COM A BARRIGA”, literalmente falando e com o perdão do trocadilho.
Hoje se configura como uma questão de “saúde pública e de planejamento social e econômico de uma nação”, e não pode ser discutido APENAS sob o prisma IDEOLÓGICO ou RELIGIOSO.
A CIÊNCIA em geral e a Medicina em particular têm alcançado progressos tão surpreendentes que obrigatoriamente precisamos rever conceitos e paradigmas aceitos até pouco tempo como incontestáveis. O conhecimento científico cria novos conflitos à sociedade mas também propicia novos horizontes, novas visões de mundo e explica fatos ignorados até então. Fatos estes que não podem mais ficar submissos à antigos conceitos oriundos de velhas crenças, conotações etéreas e até superstições sem fundamento.
Repito !!!
Acho que o tema do Aborto é um problema seriíssimo e de resolução inadiável mas precisa ser estudado profundamente à luz dos novos fatos CIENTÍFICOS e também MORAIS, pois a ciência somente trará os benefícios do conhecimento, ao se pautar também pelos padrões ÉTICOS e MORAIS, com seus parâmetros limitantes.
A BIOÉTICA é esta nova disciplina científica que combina e revisa conceitos da Medicina, do Direito e da Filosofia, para adaptá-los aos novos tempos.

A MORAL é um entendimento majoritário da SOCIEDADE, então este e outros fatos que atinjam a coletividade precisam ser decididos pelos seres componentes desta mesma sociedade coletivamente, NÓS TODOS, CIDADÃOS !!!
Como poderemos tomar esta decisão ????
Buscando o esclarecimento e o conhecimento amplo e cristalino de todos os fatos que compõem o problema e suas repercussões, para direcionar com liberdade nossa opção.

Debinha,

Assunto difícil e delicado.
Quando muito nova, fui a favor do aborto.
Com o passar do anos ,o tempo, a experiência e principalmente a vivência , me fizeram mudar o modo de pensar, levando em conta tudo o que apreendí durante meu tempo de vida , e o que mais me impressionou foi uma frase que lí; " ao feto não foi dada opção..."
Gostei dos comentários do CAÍQUE que analisou de forma muito madura o assunto tão polêmico que vc abordou.
Cabe a nós respeitarmos o "livre arbítrio" de cada um/uma, esperando que depois não sejam cobrados por suas consciências!
Beijos e, mais uma vez, parabéns por sua visão e maturidade
Tia Sarinha

Extraordinariamente maravilhoso sempre este espaço. Parabens, estarei indicando nas minhas páginas.
Uma dica: não deixe de curtir e baixar em mp3 as minhas canções da
http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=24909
e ver meus clipezinhos musicais & poéticos no http://videolog.uol.com.br/lualma
Vou adorar sua visita e comentário.
Beijabrações, lindo final de semana & tataritaritatá!!!
www.luizalbertomachado.com.br

Eloisa helena disse...
05 Agosto, 2007 18:14
 

Sou a favor da mulher ser dona do seu corpo.Não importam as circunstâncias. Quanto ao governo, determinar o número de filhos, acho errado. Ele deve sim promover a Educação, sugerir, aconselhar.Uma parte da população mundial usufrui dos bens da terra e depois vai querer determinar quem pode e quem não pode viver? Cada um vive de acordo com sua realidade.A vida é um milagre que não se repete.Quem tem preceitos religiosos vai obedecer a eles e quem não tem...será livre para decidir.Deborah, ótimo 5texto pra reflexão, obrigada!

Muito legal você ter abordado este assunto. Básica e diretamente, eu sou a favor da legalização total do aborto. O que não significa que eu seja completamente a favor do aborto. Sou a favor da educação do povo e do planejamento familiar. Mas também sou a favor do livre arbítrio. Cada mulher tem o direito de escolher o que fazer com seu corpo, já que as consequências, só ela mesma sofrerá. E também penso que sou a favor de uma vida decente para a criatura que está para nascer. Para mim, ter um filho e depois jogá-lo no lixo - literalmente- ou enfiar o recém nascido numa mochila e abandoná-lo num terreno baldio, é infinitamente pior do que abortar. E essas são notícias não raras nos jornais. É algo que acontece cotidianamente.
E o pequeno que (crenças reliogiosas a parte), veio ao mundo sem nem saber como, quando ou por que, sofre uma morte terrível asfixiado num saco de lixo, ou devorado por ratos.
No Japão, é comum, quando uma mulher vai ao médico para os exames e descobre que está grávida, a pergunta "vai continuar a gravidez ou quer interrompê-la?". Assim, sem grandes escândalos ou alarde. Não defendo o uso do aborto como método contraceptivo, mas defendo o direito a uma vida digna à criatura que está por vir. Se vai jogar fora depois, ou vai usar o filho para esmolar, mendigar, roubar ou ganhar bolsa família, que não o tenha. Se tiver, tem obrigação de lutar ao máximo e dar melhor que puder a esse filho.

Esse pequeno adendo é só a título de curiosidade. Não o coloquei aqui por concordar ou discordar, é só informação que recebi.
Na China, onde o aborto é livre, há várias clinicas que eles chamam de "clínicas femininas" que são especializadas em aborto. São pequenos hospitais, equipados para procedimento cirúrgico, onde as mulheres abortam com total segurança. A faixa de mortalidade de mulheres em virtude dos abortos e quase zero. E é muito comum que as mulheres cheguem nessas clínicas como os parceiros, namorados ou maridos, que aguardam na sala de espera durante a intervenção. E ao sair, a mulher repousa numa sala própria para tal com outras mulheres por cerca de duas horas, e está liberada para voltar para casa. Com o companheiro que a aguardava. Há até mesmo propaganda, anúncios, com os nomes e endereços, e com as vantagens que cada anunciante publica...
Uma pesquisa que li disse que 70% das mulheres que vão a uma dessas clínicas estão no seu segundo ou terceiro aborto...

Bom, o tema desta semana é cabeludo. Falei pra Deb que quando desse a minha opinião seria provávelmente linchada, mas tudo bem.


Moro num país onde o aborto foi depenalizado até ás 10 semanas faz pouco tempo. E trabalhei na campanha pela legalização. Infelizmente no Brasil, a maioria das pessoas que são contra a legalização ainda não entenderam que no Brasil o aborto não é legal, mas é liberal. Aborta-se clandestinamente em qualquer altura da gestação. Quem pode, sai do país, ou paga um clínica de luxo e aborta antes das 10 semanas. Sem problemas, sem crises, sem contratempos e sem penalizações. Quem não pode, aborta de 12, 14, 16, 20, 22, 24 semanas, enfim, quando pode ou consegue juntar o dinheiro pra tal. Ou então aborta com cabide de arame, agulha de tricot ou crochet, e vai parar no SUS com uma hemorragia que coloca a sua vida em risco.

Os números do aborto no Brasil estimados pela OMS são de 1 milhão e 400 mil/ano. Mas como é ilegal, é impossivel contabilizar. Podem ser 4 milhões, já que muitos, feitos com Cytotec em casa, não são contabilizados, além dos feitos com sonda e outros objectos, que por sorte correm bem. Mas 250 mil mulheres vão parar ao SUS todos os anos, por abortos mal feitos em açougueiros de fundo de quintal. Esta é a realidade brasileira.

Costumo ouvir falar tb em prevenção. A prevenção é essencial. Mas não chega. As donas Josefas da vida, católicas fervorosas nunca vão usar uma camisinha pq a Igreja não deixa. A maioria das adolescentes brasileiras não tem abertura com os pais para conversar sobre sexo e prevenção. Se vcs derem uma passada nas comunidades pela legalização do Orkut, vão perceber que todas semanas aparecem 6, 7, 10 meninas pedindo ajuda pra abortar. Lá não podemos nem indicamos clínicas, nem onde comprar medicamentos abortivos. Só podemos ouvir, apoiar, não condenar. Mas mesmo assim elas abortam. E muitas vezes com consequências pra vida toda. É verdade que o sistema de saúde brasileiro fornece pilula e camisinhas gratuitas. Mas eu pergunto : quantos de nós já usaram a camisinha do SUS? 6 em cada 10 estouram... a pilula fornecida por eles é uma bomba hormonal e poucas são as mulheres que se dão bem com ela sem efeitos secundários. Pilula é uma coisa tão pessoal como carteira de identidade. tem que ser específica pra cada mulher, pq os organismos não são iguais. Tem DIU tb. Mas... já encontrei pelo menos 2 casos de mulheres que engravidaram com o DIU. Além disso nenhum método é 100% seguro, sabemos disso. E depois temos a abstinência recomendada pela Igreja Católica. Mas falar de abstinência sexual pra adolescente, ou pras Donas Josefas da vida é tarefa inglória.


Dos muitos argumentos que ouço dos ditos "pró-vida" o mais comum é : gostou de fazer, agora assume. O que demonstra não uma preocupação real com o feto, mas sim com a vida sexual da mulher. Além disso muitas não tem condição de assumir. A maioria não tem nem condição nem idade. Em muitos casos tb, o namorado, assim que sabe da gravidez some. Como eu costumo dizer, em 90% dos casos que uma mulher aborta, o parceiro já "abortou" antes dela. Quando elas arrumam coragem e contam para os pais, na maioria dos casos é no fim da gravidez. Aí a criança nasce, e a mãe adolescente ganha um novo irmãozinho e os pais ganham um novo filho. Parabens!


Tem a questão moral tb. Um feto é um ser humano em formação. Concordo. Mas a mãe é um ser humano completo, muitas vezes com outros filhos para criar. è uma pessoa com vontade própria, adulta, com uma história. Já não é mais um ser em formação. E pra mim e muita gente que defende a legalização a vida e as proiridades da mãe prevalecem sempre. Como sou mãe de 2 filhos, sei que não é um feto na nossa barriga que faz com que sejamos mães. O que faz a maternidade não é a gravidez. É aquilo que cada mulher sente pelo ser que tem dentro. Tem as crianças felizes que são planejadas e desejadas. E tem os outros. Que não são planejados, muito menos desejados, vêem ao mundo já com o estigma da rejeição que muitas vezes os acompanha a vida toda. Muitos deles são jogados no lixo, em bueiros, na lagoa, ou abandonados num saco de supermercado. Aí os pró-vida vêm correndo chamar essas mães de assassinas, vagabundas e tal. Só que esquecem, que foi a lei do "tenha e se vire" que eles mesmos querem implantar que faz essas mulheres, muitas vezes tb sob uma depressão pós parto abandonarem os filhos de qualquer jeito.

tem a opção do " dê pra adoção". O que muita gente não entende, é que a rejeição dessas mulheres começa na gravidez. Elas não querem não só a criança, tb não querem a gravidez. Além disso a realidade dos orfanatos brasileiros é terrivel. Se a criança não for recém nascida, branca, menina, de preferência loira de olhos azuis, e tiver alguma deficiência por menor que seja, estará condenada a permanecer no orfanato até aos 18 anos. Quase ninguém adota crianças com mais de 2 anos. São condenadas à morte em vida. Pra mim, então, é peferível não existir, sequer.

Existem pró vidas de verdade. Conheço pelo menos dois aqui nas comunidades pela legalização. Uma delas, a Ju, mãe de 4 filhos, 2 deles adotados. Outro o Ronnie, advogado, evangélico, virgem, aos 33 anos. Segue à risca tudo o que defende. Infelizmente como eles existem poucos. O que eu vejo na maioria dos casos, são aqueles que se dizem pró-vida, mas cuja maior preocupação é a vida sexual da mulher, que engravidou sem querer, quer abortar e por isso é uma vagabunda. Não a vida do feto.

Na maioria dos países da Europa o aborto é legalizado. E se nos primeiros 2 ou 3 anos a seguir à legalização os numeros reais aumentaram ( ou mostraram quantos abortos se fazem de fato!) depois começaram a baixar drasticamente. Pq a legalização é obrigatóriamente acompanhada de consultas com psicólogos e assistentes socais antes, e consultas de preveñção obrigatórias depois. Pra que aquela mulher não precise nunca mais voltar a abortar.

Já sei que muita gente pensa que existem mulheres que fazem ou fizeram 10, 12 abortos. Mas essas podem fazê-los, e por isso a legalização não vai mudar nada pra elas.

No entanto, respeito todas as pessoas que são contra o aborto. Que sejam. Ninguém obriga ninguém a abortar. A legalização apenas dá as mulheres o direito de escolherem o que é melhor pra elas...