Bienvenidos a Cayo Largo

Música da Semana: Bella Maria de Mi Amor
(Antonio Banderas - The Mambo Kings)

Fui a Cuba antes de casar. Para ser mais precisa, foi minha última viagem de solteira. Do dia em que aterrisei de volta no Brasil em diante, posso contar nos dedos os dias em que fiquei longe do Ric.
Fomos eu e minha mãe em uma excursão de brasileiros com duração de uma semana. Nossa viagem incluía estadias em Havana e Varadero. Não me lembro de nossos companheiros de viagem, mas lembro, como se fosse ontem, do grupo de estudantes de Letras que encontrei durante a visita ao Muséo de la Revolución. Lembro de ter me apaixonado por aquele povo simples, prestativo, simpaticíssimo e cheio de necessidades.
Cuba, mesmo tendo parado no fim dos anos 50, é linda. Não sei como está Cuba hoje, pois lá se vão uns 17 anos que estive lá. Naquela época, tinha lojas separadas para os turistas e para os cubanos. As dos cubanos não tinham nada. E as dos turistas não tinham nada que viesse dos Estados Unidos. Coca-cola? Não havia. Tinha uma Pepsi importada não sei de onde e um refresco de cola feito por lá mesmo, base do Cuba Libre que nunca bebi outro igual na minha vida.
Eu poderia ficar aqui horas descrevendo os prédios, as propagandas anti-imperialismo, o La Bodeguita com o autógrafo de Hemingway. Mas, vocês perderiam o melhor. Nossas aventuras em solo cubano, nosso contato com o povo.
Bom, Cuba não tinha os melhores meios de comunicação do mundo e ainda não tínhamos entrado na era da internet em 1990. Ninguém conseguia nenhum contato com o Brasil. Até que um dia, a las siete de la mañana, toca o telefone do nosso quarto de hotel. Minha mãe, que não agüentava ouvir um telefone tocar, atendeu. Com um bico enorme e um tanto de inveja, ela me disse: “é pra você”. Era o Ric, até então persona non grata para minha mãe. Falamos por uns 15 minutos, eu aos sussurros para a minha mãe não ouvir. Quando desligamos, minha mãe se vira para mim e diz: “É, ele deve gostar mesmo de você. Seu pai não se esforçou.” E eu: “Mãe, ele deve ter ido na telefônica ligar.” “Como eu disse, ele deve gostar mesmo de você.”
Minha mãe foi a estrela da festa daquela viagem. Muito loura, muito queimada de sol e com os olhos bem verdes, vivia levando cantada dos cubanos no meio da rua. Teve um até que nos parou para declamar um poema para ela. E ela, boba, achando que era tudo para mim.
Minha mãe era uma piada. E era também do tipo que achava que viagem não era para ficar dormindo em cima de dólares. E me arrastava atrás dela. E lá fomos nós numa lanchinha para a ilha das iguanas. A idiota aqui achou que era mais uma ilha. Não era. Era literalmente a ilha das iguanas. Só tinha iguana lá. (Pausa Discovery Channel: clique aqui para saber o que é uma iguana). E as iguanas são nojentas e feias. Eu tinha duas escolhas: ou ficava na lanchinha – e eu enjôo fáaaacil – ou descia e aturava aqueles bichos subindo nos meus pés. A lanchinha. Melhor enjoar do balanço. Graças a Deus, durou pouco a paciência do pessoal com aquelas coisas e não precisei esperar muito.
Um dia, a mamãe, que era metida a guia turístico, decidiu que nós duas tínhamos que atravessar toda Varadero para conhecer um resort de luxo – o único naquele tempo – para que ela pudesse recomendar para as amigas. Chamamos um táxi. 15 minutos, nada. Meia hora, nada, a não ser a irritação da minha mãe. 45 minutos e ela reclamando a plenos pulmões, quando se aproxima de nós um negão enorme, um sorriso dourado estampado no rosto. Não, eu não errei. Um sorriso dourado literalmente. Era moda por lá naqueles tempos, incrustar desenhos com ouro nos dentes. Aquele tinha uma estrela no dente da frente. Eu olhei para a minha mãe, pronta para bater o recorde dos 100 metros, e minha mãe olhou para mim e olhou para o negão que nos oferecia uma carona até o tal resort do outro lado da cidade. Minha mãe já aceitando. E eu pensando que ela tinha enlouquecido de vez. Onde estavam todas as regras de nunca entrar num carro com um desconhecido que pode sei lá o que??? Entramos as duas num Gordini (meninos com menos de 30 anos, Gordini é um carro, para ver a foto clique aqui), cheio de penduricalhos, tão cheio que não dava para ver nada pelo vidro traseiro. Sabendo das dificuldades daquele povo, oferecemos pagar pela carona. Nosso motorista se sentiu insultado. Era um prazer para ele levar em seu carro duas damas tão bonitas, mas se nós tivéssemos um cigarrinho... Imediatamente, minha mãe abriu a minha bolsa e entregou a ele todos os cigarros que ela achou lá dentro. Depois, ela pagou 5 dólares por alguma coisa parecida com Marlboro lights para mim.
Minha mãe também decidiu que, em uma viagem a Cuba, não poderia faltar uma visita a Cayo Largo. Uma ilhota perfeita para mergulhadores – nós duas nem sabíamos nadar, imagina mergulhar! – águas clarinhas e quentes. Tínhamos que pegar um avião em Varadero, passar o dia lá e voltar. Minha mãe, a guia, resolveu tudo. E lá estávamos nós, na hora marcada, vestidas para ir à praia, no aeroporto. Minha mãe era só felicidade até ver o avião. “Como assim? Tem que entrar por trás?” Sabem aqueles aviões russos que embaixo da cauda abre um escada? Era um deles. Dentro do avião, a coisa piorou. O bicho era todo de madeira. E quando ligaram as turbinas, minha mãe ficou branca. Começou a sair uma fumaça tipo gelo seco de tudo que foi lado. Ela agarrou o braço da aeromoça (não era comissária de bordo, não) que explicou que aquilo era o sistema de refrigeração e deixou umas balinhas, tipo bala Soft, nas mãos da minha mãe. As balinhas eram o serviço de bordo. Nem preciso dizer que era eu que estava na janela, né? A minha mãe tinha certeza que aqueles eram seus últimos minutos de vida. O piloto anuncia a chegada e a eminente aterrisagem. Eu olho para fora e vejo uma choupana! Uma choupana! Cadê a pista???? Só esqueci de calar a boca. E minha mãe: “Como assim ‘cadê a pista?’ Você tem certeza que este avião vai conseguir parar? A gente vai morrer, né?” “Quieta, mãe, foi você que inventou isso e a gente ainda tem que voltar.” Fora do avião, o aeroporto era mesmo uma choupana, com uma pista de terra batida, uma banda de boas vindas e coquetéis. Entramos em um ônibus, conhecemos praias maravilhosas, almoçamos em algum lugar e fomos avisadas que deveríamos estar dentro do ônibus às 4 em ponto. Não preciso dizer que minha mãe se atrasou. Porque ela não ia a lugar nenhum sem fazer xixi antes. E perdemos o ônibus. Minha mãe, histérica, conseguiu que nos levássemos ao aeroporto, mas perdemos o vôo também. E tínhamos que esperar o próximo, dali a umas duas horas. Meia hora depois, já sabíamos que a banda era animadíssima, tocavam sem parar. O problema é que eles só tocavam uma música e a música só tinha uma frase: “Bienvenidos a Cayo Largo”. Minha mãe lá, cantando junto, balançando a cabeça. E eu, bem, com dor de cabeça. Ainda por cima, o aeroporto era infestado de umas moscas enormes. De repente, eu só vejo um mãozão vindo na direção da perna da minha mãe (ainda de saída de praia, a canga daqueles tempos). Só deu tempo de eu arregalar os olhos e plaft! O mãozão deu um tapão na perna nua da minha mãe, que ainda cantava, distraída. A cara da minha mãe não dá para descrever. Do sorriso amarelo/dourado do cubano não esqueci até hoje. O grito indignado de “Que p... é essa?” só não calou a banda. E o cubano, muito humilde, respondeu “una mosca!...”
Depois de uma viagem de 24 horas, chegamos ao Brasil. Presas no aeroporto de São Paulo, minha irmã me conta pelo telefone que o Ricardo, ao contrário de todas as minhas ordens e sem ligar a mínima para a má vontade da minha mãe, estava indo para o aeroporto para me ver. Foram 3 horas ouvindo a minha mãe reclamar que o Ricardo não tinha nada que estar no aeroporto. Chegando ao Rio, não tinha um carrinho sequer para nossa bagagem. Eu, num mau humor cão, fui deixada esperando pelas malas enquanto a minha mãe ia lá fora, conseguir um carrinho. E viu todo mundo: meu pai, minha irmã, uns amigos dela e o Ricardo. Volta ela toda serelepe, empurrando o carrinho: “Ele está lá fora. Vê se consegue ser simpática.” Eu não disse mais nada. Não sei como foi o encontro deles, só sei que, a partir daquele dia, para a minha mãe foi “Deus no Céu e Ricardo na terra”.




10 comentários:
10 Setembro, 2007 00:34
hahahahah
vc tem razão, estou me acabando de rir e nem sei o q escrever, só q adoraria ter conhecido sua mãe!!!
Em alguns momentos ela me fez lembrar de mim mesma(rindo da propria desgraça,como por ex perder
o avião e ainda ficar cantando com a bandinha local). Mas afinal vc não sabe o q o Ric fez para conquistá-la assim de repente? ahhh
morri aqui de curiosidade....
beijos.
10 Setembro, 2007 06:43
Olá Debby,
Mais uma vez voce me fez viajar literalmente. Sempre quis conhecer Cuba, mas não deu. Não tive coragem de clicar para ver a iguana, preferi ficar no barco com você. Hilariante sua mãezona, tive vontade de conhece-la. O próprio espírito aventureiro, que aliás, você herdou dela. Adorei sua descrição de Cuba. Era como eu achava. Hoje vou passar o dia pensando nesta viagem.... ou seja viajando....
Beijos
Mirse
10 Setembro, 2007 10:39
Deborah!
Adorei essa viagem sua! Cuba...morro de vontade de conhecer...
Parece que fui transportada pra lá...rsrrssrsrsrs...ri muito. Mas viagem é boa por isso, na hora a gente se desespera, mas depois, é tanta coisa pra contar...rsrsrsrsrss.
Adorei mesmo!
10 Setembro, 2007 11:40
Não vou repetir o que disseram acima, mas penso igualzinho. Realmente, a estrela da viagem não foi a viagem em si, sequer a ilha de Cuba, mas sua mãe e a capacidade de se aventurar, de acreditar, de procurar ser feliz. Uma piada? Eu não diria assim. Achei-a excepcional. Já pensou se ela fosse contemporânea de Jack London? Que espetacular casal fariam!
Só fico triste porque vc me deixou com um sentimento muito feio, que foi o da inveja. Diga-me, o que é que aquela loura queixuda e de pernas finas tem que nós não temos? (além da idade, é claro): Mon Dieu, além de tudo o homem canta e bem. Já salvei a música, já que não posso salvá-lo em pele e osso, em cabelos e olhos, em.... tá, deixa para lá...
Bjks,
Rosinha
10 Setembro, 2007 14:39
Deb, vc tem um jeito unico para escrever, viajo junto com vc, fecho os olhos e fico imaginando cada cena, cada paisagem, cada local que vc descreve, parabens por esse dom, ah, e parabens tbem pela mae, bjs. Rosangela.
10 Setembro, 2007 17:14
Oi,
Deborah,
Ouvindo a música me fez lembrar o bolero, como era gostoso dançar bolero.
Vendo as fotos, sua e da sra sua Mãe, me apaixonei, você muito linda, uma garota tipo traquina:mas como você diz: sua mãe roubou a cena pra começar ela também muito bonita e decidida... já sei quem você puxou.....que viagem incrível, estou rindo até agora. Fantástica sua narrativa. A do cubano matando a mosca nas pernas de sua mãe esta é demais ahahahah.Sua mãe foi importante em sua vida e sei que guardas em seu coração os melhores momentos. Nota mil, ameiiiiiiiiiii
maria helena.
10 Setembro, 2007 18:55
olá deborah!!!
apesar de não ter comentado sobre os outros mais adorei essa viagem sua adoraria conhecer esses lugares mais conheci pelo seus comentários como é divertido e maravilhosos esses lugares. e cuba parece ser um ótimo lugar e parabenizo por ou pela essa coluna que vc nos aprezenta toda semana. e gostaria de sugerir a você que conheça o brasil agora pois eu desejo e vou conseguir realizar esse sonho meu de conhecero maranhão, recife eetc... bom resumindo bjs parabéns e continui assim pq estão perfeitoas essas materiias vcs vão arrebentar sempre. adorei.
Jamille
10 Setembro, 2007 20:20
Que maravilhoso.. lí seu texto ouvindo essa música... E que emoçao receber um telefonema do Ric..Tudo perfeito e cômico, nao posso negar que com essa viagem eu rí das situaçoes.. o aviao, as balinhas soft, o gordini..Sinceramente... gostaria de ter viajado com sua mae...
Beijos
11 Setembro, 2007 09:07
Que horror! Não quero conhecer cuba, não. Apesar das praias supostamente lindas, essa velharia toda é muito desagradável. E o mau gosto para acessórios e enfeites já tem fama... Já a música cubana eu gosto.
Obrigada por todos esses depoimentos de viagem!!
15 Setembro, 2007 19:04
Deborah,
A série de textos relacionados às suas viagens está muito boa mesmo.
Sua viagem a Cuba foi engraçadíssima e sua mãe uma figura das mais divertidas. Agora sabemos que no seu caso “filho de peixe, peixinho é”. Mesmo que não se concorde com as atitudes tomadas por Fidel, o mistério em torno da ilha e dos resquícios de um socialismo que já não existe mais, me parece despertar muitas curiosidades, principalmente em mim. O país capenga em seu planejamento estrutural, em tecnologia e em liberdade social é mesmo assim uma referência na medicina e no esporte. Agora com a possível morte de Fidel (olha eu dando de mãe Diná), o comportamento dos próximos governantes será muito especulado pela imprensa e pelos curiosos da história. Será que o curso do pseudo-socialismo será desviado? Se o for, quais serão as barreiras enfrentadas para que isso ocorra da melhor forma possível.
Vi uma reportagem que depois dos investimentos da ex-União Soviética e de um longo período de recessão da ilha, agora Hugo Chaves (quem diria?) é o maior financiador de Cuba.
Deborah... Em sua estada na ilha você percebeu claramente o sentimento de descontentamento com Fidel Castro e com as suas atitudes ou, Fidel para os cubanos não é o monstro que pintam por aqui?
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