Raízes

Música da Semana: HaYalda Achi Iafa BaGan
(Yehudit Ravitz)

(Veja aqui a tradução da letra)
Minha mãe era uma sionista nata. Acreditava em Israel, trabalhava por Israel e, se tivesse dependido só dela, nós todos teríamos nos mudado para lá quando eu tinha 5 anos. Meu pai não quis. Nós não fomos. E minha mãe batalhou, por toda a vida dela, pelo que ela acreditava, por seus valores, por seus princípios, entre eles o de passar para nós, eu e minha irmã, um pouco deste sentimento tão forte nela. Um dos caminhos foi despachar suas meninas para lá para que conhecessem e, quem sabe, se apaixonassem por aquele país tão especial.
Telma, minha irmã, foi para lá quando fez 15 anos (eu fui para a Disney). Era um programa em uma escola agrícola com duração de 2 meses. Uns 15 dias depois de ter chegado lá, Telma foi andar de patins sobre cera. Na hora de devolver os patins, Telma caiu e quebrou o joelho. Levada para o hospital, foi operada, fez fisioterapia, tudo por conta dos planos de saúde públicos de Israel. Minha mãe ainda insistiu em usar o plano de saúde daqui, proposta rejeitada. A obrigação era deles. Telma voltou para cá ainda de muletas e percorreu um longo caminho para ficar boa. A opinião de todos os médicos ortopedistas e fisioterapeutas que trataram dela aqui foi unânime: a técnica deles era nova e certeira. Se ela tivesse sido operada aqui, teria ficado com seqüelas. No ano seguinte, Telma voltou a Israel, para o mesmo programa, desta vez tudo bancado por eles, porque ela não tinha aproveitado nada da viagem.
Desta vez, fomos as duas. Ela para a escola agrícola e eu para a Universidade de Jerusalém e para o kibutz Bror Chail (fundado por brasileiros) para catar laranjas. Íamos em grupos de jovens (eu passei meu 18º aniversário lá), com um jovem um pouco mais velho como responsável por nós. Tínhamos bastante liberdade, mas não toda. Hora para voltar e, principalmente, sem acesso a passaporte para evitar fugas para o Egito, naquela época um país não tão amigo assim, mas que exercia verdadeiro fascínio aos jovens que tinham ido antes de nós.
Durante a semana, freqüentávamos alguns cursos (completamente apagados da memória) na universidade ou trabalhávamos no kibutz. Nos fins de semana, estávamos livres para passear, encontrar parentes, viajar para os outros kibutzim [plural de kibutz] que abrigavam nossos colegas de programa. Como parte do programa, estava também conhecer o país e para isso foram designadas três semanas, um ônibus e um soldado armado.
E, em 1982, o que eu vi foi um país jovem, orgulhoso e de primeiro mundo. Construído do nada no meio do deserto. E com toda a estrutura de um país desenvolvido – água, vegetação, tecnologia de ponta, projetos sociais que funcionavam, guardião de muita história.
Vi os pergaminhos do Mar Morto, vi o Mar Morto e, de lá, vi a Jordânia, como vejo, da praia de Ipanema, as Ilhas Cagarras. Vi tanques estacionados na rua como aqui se estaciona carros. Entrei em um ônibus lotado de árabes e um punhado de soldados israelenses, tão jovens quanto eu, voltando para o quartel depois do fim de semana. Cada um na sua. Vi cercas elétricas e faixas de terra ocupadas pela ONU na fronteira com o Líbano. E tirei foto com um pé em Israel e outro em terra de ninguém. Visitei o Museu do Holocausto – Yad Vashem – em Jerusalém e, quando saí, sentei no bosque ao redor, e chorei. Chorei por meu avô, por sua família perdida, por todos aqueles que, mesmo não sendo parentes, são, de alguma forma aparentados.
Passeei pelo mercado árabe como aqui passeio no Rio-Sul. Aprendi a regatear, a negociar. Ofereceram 25 camelos por mim e não aceitamos a proposta. Acho que o meu pai não ficaria muito satisfeito com a troca...
Andei pelo Santo Sepulcro, virei a esquina e dei na Mesquita Dourada - onde não pude entrar por ser mulher. Logo adiante, o Muro das Lamentações, onde rezei e deixei os meus pedidos. Tudo tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante.
Comi a melhor pizza da minha vida e peito de frango a milanesa para enjoar pelo resto da vida. Tive dor de barriga por causa do leite. Guardei a manteiga do lado de fora da janela porque não tinha geladeira. Conheci um oásis com uma cachoeira. Fiz amigos. Alguns para o resto da vida, outros perdidos ao longo do caminho.
E voltei com uma certeza. Não era o lugar onde eu queria viver. Naquela época, aos 18 anos, eu ainda sonhava em ter filhos. E não conseguia me imaginar criando meus filhos para serem soldados, para irem para a guerra. Besteira minha. Não tive filhos e, se tivesse tido aqui, no Rio de Janeiro, não os teria livrado de nada, a não ser do treinamento profissional e de um motivo válido para lutar.




14 comentários:
03 Setembro, 2007 02:03
Prá veriar MARAVILHOSO o tema dessa semana.
03 Setembro, 2007 06:28
oi deborah ,lendo sua estoria, lembro da minha, tambem estive em israel aos 18 anos, so que ao voltar sonhava um dia em morar em israel. os anos passaram, me casei, tive filhos e depois de tanto s anos passados eu e minha nova familia fizemos alia, so que essa israel desse tempo de sua juventude e da minha ja nao e a mesma, nao sei se por agora eu ser cidada israelense tambem, tendo filhos a srvir o exercito, me apavora, as pessoas nao sao aqueles jovens ou judeus sionistas de outros tempos, mas a populacao agora aqui e de russos , etiopes, e na sua maioria e claro gente de todas as partes do mundo, costumes diferentes da nossa realidade judaica brasileira,mas o que ainda me mantem firme aqui e aquele sionismo guardado no fundo do coracao, porque a realidade aqui hoje e muito diferente daquilo que sonhavamos quando jovem.
03 Setembro, 2007 06:59
Como sempre uma descrição maravilhosa e empolgante.
Também eu me pus a imaginar o que seria de nós com uma Déborah em Israel? Será que teríamos o prazer de ler o seu blog?
Já agora, 25 camelos é uma grande oferta, certo?
Bjs
03 Setembro, 2007 10:04
O melhor post de todos.
Realmente, as raízes atraem e é preciso pagar um alto preço por negá-las.
Aqui no Brasil não vejo possibilidade de criar filhos. Pelo menos lá eles teriam tido também raízes, algum ideal, algo por que lutar.
Mas as escolhas que fazemos são sempre certas, afinal são as únicas possíveis. Depois não é possível mudá-las e portanto, elas têm que estar certas de um jeito ou de outro.
Eu provavelmente teria ido. Não,certamente teria ido. E se pintar a chance, eu vou. Especialmente após ler este magnífico post.
03 Setembro, 2007 10:33
Deborah,
parece que eu viajei contigo pra Israel... amei a descrição dos detalhes.... desculpa ter estado longe, mas a vida corrida estpa me atrapalhando um pouco... agora, estou pondo minha leitura do blog em dia e comecei com o pé direito.
Beijos.
03 Setembro, 2007 10:39
Oi Deborah, como vc e muitos tb fiz uma viagem pra Israel aos 18 anos.Foi uma viagem maravilhosa!!! Conheci o homem da minha vida, meu marido. Voltamos pro Brasil e constituímos uma família linda!! Só indo pra Israel pra ter a oportunidade de conhecer esse brasiliense!
O seu texto como sempre está uma delícia e me fez reviver nossa viagem!
Um beijo grande,
03 Setembro, 2007 11:33
Querida, pode me matar, mas sabe que, quando Karen tinha 17 anos, ela foi convidada, pelos tios de um casal amigo, a morar e estudar em Israel, na capital, e eu não deixei? Como me arrependo! Quem sabe ela não se tornaria um ser humano melhor? Enfim, águas passadas...
Falemos do seu post: Muito bom! Ficou faltando, apenas, vc contar como é um kibutz, parte física e seu dia-a-dia, algo que sempre tive vontade de conhecer.
Em compensação, tb chorei no Museu do Holocausto, fiz meus pedidos no Muro das Lamentações, comprei MUITO nos bazares e protestei diante da Mesquita Dourada por não poder entrar, afinal sou contra todo e qualquer tipo de preconceito, principalmente o feminino. E tudo isto em companhia da Deborah!
Agora, esta história dos camelos...
o pior é que não se pode ofendê-los, dizendo o que deveriam fazer com os 25 camelos. Se ainda fossem 30, dava para pensar... (rs)
03 Setembro, 2007 11:55
Deborah, você sabe que eu adoro tudo o que você escreve, não sabe? Espero ansiosa a chegada da segunda-feira para ler seus textos, cheios de sentimento, verdade, aventuras. Mas devo dizer, minha cara, que dessa vez você me surpreendeu!
Sei que ainda tem muitas viagens pela frente, para fazermos com você, mas não acredito que nenhuma outra vá me emocionar tanto quanto essa de hoje!
MARAVILHOSO! LINDO! Foi o que eu mais gostei até agora! Estou até sem palavras!
Bjs, Lari!
03 Setembro, 2007 14:08
Olá Debby,
Nunca tive em Israel, mas agora posso dizer que estive lá sim. Voce além de nos posicionar me passou com muita emoção as experiências que sem pre quis ter . Maravilhoso e super emocionanteParabéns.
Beijos
Mirse
03 Setembro, 2007 16:03
Lindo e emocionante texto!Foi uma viagem mesmo ao passado, ainda mais com a foto desta linda e charmosa senhorita! Não foi à toa que te quiseram trocar por uns camelos... ficaram maravilhados com o olhar esperto e amoroso, curioso, desta jovenzinha capaz de se emocionar com o passado..Mas já pensou, o Ric tendo de se desdobrar em mais e mais camelos pra poder ter você, pra tentar a troca?rsrsr Quanto a chorar sobre o Holocausto, não reparou que tinha uma magrinha pertinho de você, não? Pois é...era quem em espírito? Parabéns, querida!
04 Setembro, 2007 14:26
Deborah.. nunca tinha visto tao de perto essa situaçao de troca.. achei muito engraçado. Que otimo que nao foi feito a troca.. Onde vc estaria agora ??
Mais uma vez pude conhecer um outro lugar: Israel... Obrigada Deborah...
05 Setembro, 2007 11:27
Boa Noite
Deborah
Acabei de ler seu comentário sobre sua estadia em Israel.
Eu te admiro, és uma mulher inteligente com conhecimentos culturais, viajou por muitos países, tendo assim muitas histórias a contar e passando suas experiências com a maior sensibilidade e passando um pouco de cultura a quem não teve oportunidade de viajar por esse mundo a fora.
Maria helena.
08 Setembro, 2007 18:03
Ola, Deborah
faz tempo q queria deixar um comentario sobre seus textos da mente da mulher....
recebo todas as semanas e fico bem feliz e curiosa em ler as coisas interessantes q vc tem a nos contar......
Estou A-D-O-R-A-N-D-O ler sobre as suas viagens e aventuras.....era e sempre fui muito feliz morando na minha casa com a minha familia, mas de certa forma sempre senti q a minha casa era o "mundo" e por isto tb viajei e procuro viajar sempre q posso.....o prazer eh indescritivel e o q trazemos das viagens eh algo q nao tem preco....
Moro na Alemanhaha tres anos e meio, e apesar das saudades , hoje a minha vida eh aqui......vim para ca com 18 anos tb a primeira vez, e desde aquela epoca sempre soube q minha casa seria aqui.....
Por favor nao pare nunca de escrever, vc nao sabe o qto traz de alegria as pessoas e pode repartir esta vida cheia de riquezas e oportunidades q Deus te deu....
Obrigada por tudo, continue assim...
um beijo
Ellen
09 Setembro, 2007 18:45
Lindamente emocionante!!!
Embora nunca tenha pensado em fazer
esta viagem, acabo de me arrepender
disso(seus textos sempre me me fazem rever meus conceitos, nao necessariamente negativos; me fiz entender? :D) Adorei a quantidade de camelos..qto eu valeria??? aos dezoitinho...hum... ahhhh adorei te conhecer nessa idade tb :)
beijosssss.
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